Memórias de um Sobrevivente - Luiz Alberto Mendes

Memórias de um Sobrevivente - Luiz Alberto Mendes
Tempo de leitura: 3 min de leitura
Link copiado!

Terminei de ler Memórias de um Sobrevivente, do Luiz Alberto Mendes. Que livro fantástico.

Eu já li bastante coisa sobre prisão e gosto muito do tema, Estação Carandiru, do Drauzio Varella é um livro que me marcou bastante, mesmo assim não tem como não tomar um choque com a realidade dos fatos narrados pelo Luiz Alberto Mendes. É violência, dor e uma vida que parece não dar espaço pra respirar de tantos fatos cruéis vivenciados.

Canvas do livro Memórias de um Sobrevivente, de Luiz Alberto Mendes

O livro é a história de vida dele narrada com muitos detalhes, desde a infância até os anos dentro da penitenciária. Ele conta a violência que viveu em casa, as fugas, os primeiros furtos, os crimes cada vez maiores e as muitas passagens por reformatórios e prisões. Não é uma leitura leve e em vários momentos é até difícil continuar, principalmente pela forma direta como ele fala de homicídios, assaltos, drogas, medo e da violência que fazia parte daquele mundo, mas as partes que achei mais cruéis foram as torturas sofridas na prisão.

Gostei muito do estilo de escrita, é simples e direto mas também muito humano. Não parece que ele está tentando se justificar ou transformar a própria história em algo bonito. Ele conta o que fez, mostra as consequências e também deixa claro que o ambiente em que cresceu teve peso, mas não usa isso como desculpa.

Depois que terminei fui pesquisar mais sobre ele. Luiz Alberto Mendes nasceu em São Paulo, em 1952 e passou mais de trinta anos preso. Começou a ler na cadeia e foi ali que a relação dele com os livros mudou tudo. Estudou, chegou a passar em Direito na PUC-SP e deu aula para outros presos. Memórias de um Sobrevivente foi escrito a mão dentro da prisão e publicado em 2001, quando ele ainda cumpria pena. A história de como o manuscrito chegou até a Companhia das Letras também é muito boa, com ajuda do Fernando Bonassi e do Dr. Drauzio Varella.

É impossível não ficar contente ao acompanhar a mudança interna dele no fim. Um cara que viveu como bandido, homicida e latrocida começa a querer ser um cidadão honesto. Larga as drogas, o contato com o crime e faz uma virada total na existencia. Os livros claramente tiveram um papel fundamental nisso. Não apagaram o passado e nem as marcas que ele deixou nos outros e nele mesmo, mas abriram uma possibilidade que talvez antes nem existisse.

Depois de sair da prisão, ele escreveu outros livros, trabalhou como colunista da Trip e também deu oficinas de leitura e escrita em presídios. Acabou morrendo em 2020, aos 68 anos. Fiquei com vontade de ler Às Cegas e Confissões de um Homem Livre, que também são dele.

É um livro duro, pesado. Mas é uma história real. Da esperança pra quem está numa situação parecida e quer mudar, mesmo quando parece tarde demais.